Esta foto é uma cena clássica de treino de karate à moda antiga, certo? Errado. O karate antigo era praticado e ensinado apenas em segredo, e com aulas específicas para cada aluno. O ensino a grandes grupos veio com o surgimento do karate moderno.

A arte marcial que hoje chamamos de karate[1] foi originalmente desenvolvida no reino de Ryuukyuu (localizado em um arquipélago entre o sudoeste do Japão e o sudeste da China), a partir das tradições e conhecimentos de luta dos nativos daquela área, acrescidos das influências vindas de artes e mestres de outras regiões asiáticas (com algum destaque para as artes marciais do sul da China, entre outros). O resultado dessa combinação foi a criação de um conjunto completo e notável de tradições, conhecimentos, métodos e técnicas altamente eficazes para luta corporal voltados à proteção da integridade física e da vida dos praticantes, bem como das pessoas sob a guarda deles.

Essa arte passou a ser transmitida publicamente e para grandes grupos de alunos somente a partir do início do século XX. O karate, que originalmente era ensinado apenas em segredo e para alunos específicos que fossem da confiança dos mestres dos tempos antigos, foi finalmente apresentado ao público por ocasião da sua inclusão como disciplina de educação física nas escolas para os jovens de Okinawa[2]. Aproximadamente duas décadas depois desse acontecimento, o ensino da arte marcial do Reino de Ryuukyuu começou a ser gradualmente introduzido em escolas de artes marciais e em universidades da porção principal (mainland) do Japão – que a essa altura já havia anexado aquele antigo reino (agora identificado como província japonesa de Okinawa) ao seu território.

O karate ganhou popularidade ao longo dos anos, tornando-se uma das artes marciais mais praticadas do mundo. No entanto, com o passar dos anos e dentro do contexto de transmissão em massa para novos alunos, um processo histórico envolvendo muitos fatores resultou em profundas modificações no conteúdo daquela arte marcial que antes era ensinada apenas em segredo. Entre esses fatores que influenciaram as modificações, podemos citar, sem esgotar a lista: os resquícios da antiga cultura de transmissão em segredo (mestres antigos se recusavam a ensinar a arte por completo a novos alunos); os efeitos da Segunda Guerra Mundial sobre Okinawa e Japão (morte de muitos praticantes e destruição de grande parte de Okinawa, e as restrições, por parte das tropas de ocupação dos Estados Unidos, à prática de artes marciais por japoneses); as mudanças culturais incidindo sobre as artes marciais orientais (que, embora fossem originalmente sistemas mortais de luta, foram adaptadas para tornarem-se formas de educação física, esporte, formação moral e cidadã e apresentação artística/estética – ofuscando assim os antigos métodos e objetivos). Como resultado, grande parte dos ensinamentos originais do karate foram profundamente distorcidos, mal transmitidos para os alunos e futuros instrutores, ou mesmo esquecidos – e as informações sobre o karate antigo foram tornando-se cada vez mais raras, levando à quase extinção de muitos dos conhecimentos mais valiosos[3].

Assim, o karate moderno diferenciou-se profundamente do karate antigo e, por obra das circunstâncias, a maioria das escolas de karate do mundo foi levada a ensinar uma arte repleta de lacunas e pouco fiel aos profundos e eficazes fundamentos originais de luta corporal (resultando em grande prejuízo para a utilização do karate como sistema de autodefesa). É como se o produto oferecido modernamente fosse um quebra-cabeças no qual muitas peças estivessem faltando (e por isso muitas simplesmente não parecem encaixar-se) – e cuja imagem final não pode ser compreendida, se nela tentarmos enxergar a antiga ideia de uma arte marcial de autodefesa. Muitos adeptos do karate entenderam essas mudanças como naturais e inevitáveis, pois para eles os conhecimentos antigos eram desnecessários no mundo moderno – e a transformação do karate em um mero esporte de luta e método de educação física e moral (ainda que mantendo importantes princípios da tradição do budo moderno japonês) seria uma evolução da arte. Fenômeno semelhante inclusive aconteceu também com a fundação de versões modernas da grande maioria das artes marciais tradicionais, inclusive as japonesas[4]. A certa altura, a maioria dos praticantes e até mesmo instrutores já ignorava essa distinção (entre artes marciais antigas e modernas), não percebendo ou não se importando com o fato de que o karate que eles aprenderam não correspondia fielmente à arte marcial originalmente praticada em no reino de Ryuukyuu (Okinawa) – muito embora vários mestres antigos tenham enfatizado a existência dessas diferenças[5].

Mas nem todos ficaram tão conformados com a ideia de deixar para trás os antigos ensinamentos do karate. Ao longo do século XX e principalmente nas últimas décadas, mestres de karate em Okinawa, além de estudiosos de todo o mundo, iniciaram um esforço para redescobrir esta arte marcial. Muitos passaram a viajar para a região onde o karate nasceu, a estudar os ensinamentos orais e documentos deixados pelos grandes mestres antigos, e a aprender com os mestres locais; mestres da região também decidiram finalmente compartilhar segredos que até então eram rigorosamente guardados[6] – para garantir que o karate antigo não morresse, e para reverter o processo de desfiguração que ele sofreu. Esse movimento tomou proporções mundiais nos últimos anos, impulsionado pela revolução das comunicações e pelo trabalho árduo de pesquisadores determinados a recuperar informações e transmiti-las para todo o mundo. Sociedades de pesquisa, preservação e promoção do karate “estilo antigo” de Okinawa foram criadas, e o conhecimento passou a fluir em círculos de praticantes pelo mundo.

Samir Berardo, fundador do Muidokan, segurando versão em inglês do clássico do karate antigo The Study of China Hand Techniques[7]. Esta e outras obras maravilhosas tornaram-se disponíveis nos últimos anos, graças ao esforço de grandes pesquisadores ao redor do mundo – revelando a complexidade, o brilho e a eficácia do karate como era originalmente ensinado e praticado.

Foi nesse contexto que o pesquisador brasileiro Samir Berardo fundou o Muidokan Karate Kenkyukai – uma sociedade de praticantes apaixonados, com o objetivo de praticar, pesquisar, preservar e promover o karate na sua forma e fundamentos originais, como arte de autodefesa e de preservação da vida. Essa sociedade desenvolve projetos de pesquisa e oferece ao público conhecimentos que levem uma maior compreensão do karate estilo antigo, através de publicações e de instruções diretas (aulas e seminários) – tudo com o mais profundo respeito por cada uma das pessoas que se dedicam e se dedicaram ao karate e pelo público em geral. O Muidokan também mantém contato e intercâmbios com grandes instrutores, pesquisadores e praticantes do mundo, e desenvolve, através do trabalho do seu fundador, Samir Berardo, projeto inédito e notável no resgate dos fundamentos originais da arte, especialmente na área que provavelmente é a mais fascinante e mal compreendida no karate: o estudo do kata, do seu significado e suas aplicações (estudo popularmente conhecido como bunkai). Com esse fenômeno mundial, o karate está passando hoje por uma verdadeira revolução e um retorno às suas origens, e o Muidokan, seus associados e apoiadores fazem parte dessa revolução. Se você ama karate e quer conhecer, praticar, promover e ajudar a preservar os fundamentos completos e originais dessa arte, você também pode ser parte desse grande movimento, associando-se, colaborando com a gente ou simplesmente conhecendo e apoiando o nosso trabalho (seguir-nos e compartilhar nossas publicações já é uma grande ajuda!).

Samir Berardo, fundador e diretor técnico do Muidokan, demonstrando uma aplicação de acordo com os fundamentos do karate estilo antigo para a manobra conhecida como gedan-barai, usada em vários katas como Pinan Nidan (Heian Shodan), Gekisai Dai Ichi e outros. Observe alguns elementos notáveis da eficácia combativa do karate antigo: impacto direto (do punho de martelo) contra uma área frágil do corpo humano (genitália); controle sobre um dos braços do oponente, a fim de dificultar seu ataque ou defesa; ataque simultâneo a duas outras áreas do corpo do oponente (cotovelo esquerdo, que pode ferir a articulação, e perna esquerda, capaz de desequilibrar o oponente).

Notas:

[1] “Karate” (空手) é o nome mais usado atualmente para referir-se à arte marcial de que tratamos aqui. No entanto, registros históricos têm apontado o uso de outros nomes como, por exemplo: “toude” (唐手 – que também pode ser pronunciado como “karate”); “te” (手); e outros termos e combinações entre eles. Observe-se ainda que aqui estamos utilizando romanização correspondente à pronúncia língua japonesa, e não à pronúncia usada nas línguas originárias de Okinawa (por exemplo: em uchinaaguchi – língua então utilizada na região de Shuri-Naha – “toude” e “te” são pronunciadas como “toudii”/”tuudii” e “tii”, respectivamente). Embora “karate” seja a expressão mais conhecida atualmente, algumas escolas continuaram usando outros nomes, e algumas utilizam essas formas até hoje, por vezes defendendo o retorno aos nomes considerados mais antigos. Retornaremos a este tópico em um futuro artigo.

[2] A inclusão do karate como parte do programa de educação física nas escolas de Okinawa foi resultado, entre outros fatores, dos esforços do mestre Anko Itosu (um dos professores do famoso Gichin Funakoshi, e criador dos famosos kata Pinan, Kusanku Dai e Kusanku Sho – também conhecidos nas versões do karate Shotokan como Heian, Kanku Dai e Kanku Sho). Itosu atuou inicialmente como professor de karate na escola de Ensino Fundamental de Shinjo, Shuri (província de Okinawa), e posteriormente estendeu seus ensinamentos para outras escolas e propôs, através de uma carta ao Departamento de Educação da prefeitura, a introdução do karate em todas as escolas da região, e posteriormente do Japão como um todo. É importante observar, como mais adiante é explicado neste artigo, que o karate ofertado nas escolas de Okinawa nesse primeiro momento já era bastante diferente daquele que havia sido ensinado em particular aos mestres da era anterior. Assim, observamos que desde a primeira etapa de massificação da educação no karate a arte já não era ensinada estritamente como um sistema de luta corporal, mas como uma mera forma de educação física. E esse “karate escolar” foi exatamente o que serviu como principal modelo para o que viria a ser ensinado posteriormente na porção principal do Japão e no resto do mundo.

[3] Por exemplo, o karate antigo, diferente do moderno, era repleto de técnicas consideradas como de “agarramento”, como por exemplo chaves de articulações e arremessos. Embora hoje cada vez mais pessoas estejam tomando conhecimento desse fato, sabemos que esse tipo de técnica recebeu muito pouca ou nenhuma atenção na grande maioria das escolas modernas de karate no século XX, as quais tradicionalmente concentravam-se predominantemente no ensino de golpes de punho/braço, golpes de perna, e “bloqueios”. Além das técnicas de agarramento, muitos outros aspectos importantes dessa arte também foram profundamente negligenciados no ensino em massa das escolas de karate do século XX. Nesse sentido, é extremamente relevante uma citação de Kenwa Mabuni (fundador do karate Shito-ryu e outro pioneiro que levou o karate de Okinawa para o Japão), onde ele não apenas explica que arremessos e chaves de articulações são parte integral do karate, mas também ressalta que o karate que estava sendo ensinado em Tóquio naquele momento (1938) não representava a completude da arte, o que provocava uma compreensão equivocada por parte dos alunos. Ele também alerta os praticantes de para evitarem o pensamento sobre o karate com a mente fechada, confinada aos limites de um único estilo ou escola – um conselho que permanece importante até o dia de hoje. Nas palavras de Mabuni: “Até o momento [1938], o karate foi apresentado apenas parcialmente a Tóquio, e pessoas que praticam karate em Tóquio pensam que ele consiste apenas em atemi [golpes de impacto] e técnicas de chute. Ao falar sobre gyaku-waza [torções] e nage-waza [arremessos], eles assumem que esse tipo de técnica existe apenas no jūjutsu e no jūdō. Essa forma de pensar o karate é extremamente inadequada, e só pode ser atribuída a uma falta de conhecimento. Em qualquer caso, com vistas à propagação do karate-dō, é extremamente decepcionante que apenas uma pequena parte do karate tenha sido introduzida em Tóquio. Para aqueles que têm em mente o futuro do karate, eu recomendo que de modo algum mantenham a mente fechada e confinada nas limitações de um único estilo ou escola, mas em vez disso procurem explorar o karate como um todo”. [MABUNI, Kenwa. “Sobre torções e arremessos – A necessidade de estudar Gōjū-ryū” (1938). Tradução para o português especialmente para este artigo: Samir Berardo, 2016 (a partir do trabalho de Andreas Quast – http://ryukyu-bugei.com/?p=5285)].

[4] Acompanhando as mudanças históricas na sociedade, esse fenômeno aconteceu com artes marciais antigas de todas as regiões do mundo. Assim, muito se perdeu (e agora alguns tentam restaurar) das artes marciais medievais europeias, ou das artes chinesas, tailandesas e até mesmo na capoeira brasileira (que originalmente tinha uma natureza muito mais mortal, mais pragmática e menos estética ou atlética do que vemos hoje). Isso não diminui a importância de nenhuma dessas artes em sua versão moderna (que são na maioria dos casos voltadas para aplicações estéticas ou esportivas, mas não para sérios embates mortais). O que acontece apenas é que nós passamos a compreender que as artes modernas são muito diferentes das suas versões antigas (que são não maioria dos casos voltadas para aplicações estéticas ou esportivas, mas não seriamente para lutas mortais). No Japão, o antigo kenjutsu (técnica da espada) também deu lugar ao moderno kendo; o antigo jujutsu (às vezes romanizado como jujitsu) deu lugar ao judo; e assim por diante. Ainda sobre o Japão, essa mudança de paradigma é conhecida como a mudança das artes do Koryu Bujutsu (artes marciais estilo antigo) para o Gendai Budo (caminho marcial moderno).

[5] Nesse sentido, confira comentário de Funakoshi (originador do karate Shotokan e um dos grandes pioneiros que levaram o karate de Okinawa para o Japão): “Mais de vinte anos se passaram desde que eu trouxe inicialmente o karate a Tóquio. Hoje, não somente as pessoas envolvidas em atividades atléticas e artes marciais mas também as pessoas em geral pelo menos ouviram falar em karate. Mesmo assim, o número de indivíduos que realmente compreendem a natureza do karate é extremamente pequeno. Além disso, uma vez que o karate está sempre avançando, não é mais possível falar no karate de hoje em dia e no karate de dez anos atrás em um mesmo fôlego. Da mesma forma, ainda menos pessoas percebem que o karate praticado hoje em Tóquio é completamente diferente, na sua forma, daquele que era praticado antigamente em Okinawa”. [Gichin Funakoshi, Karate-do Nyumon, 1943. Tradução para o português, especialmente para este artigo: Samir Berardo].

[6] Existem múltiplos registros sobre mestres de gerações anteriores que apenas na última porção do século XX (normalmente depois de muito velhos ou perto da morte) decidiram finalmente levar a público ensinamentos que receberam originalmente em segredo (e existem também relatos sobre mestres que levaram esses ensinamentos consigo para o túmulo). Como exemplo tanto da cultura dos segredos quanto da mudança de atitude de mestres de Okinawa em tempos mais recentes, confira trecho de relato de Seikichi Toguchi, aluno de Chojun Miyagi (fundador do karate Goju-ryu): “Chojun Miyagi ensinou-me esta teoria pouco antes da sua morte, e recomendou que eu não a tornasse pública. No entanto, como o karate tornou-se popular ao redor do mundo, eu senti que não seria benéfico ao verdadeiro karate se eu escondesse [os ensinamentos que transmite no livro] como um segredo na minha escola Shorei-kan. Eu considero lamentável que o público tenha perdido a confiança no karate tradicional de Okinawa e que as pessoas não possam entender o verdadeiro valor dos kata do karate”. [Okinawan Goju-Ryu II: Advanced Techniques of Shorei-kan Karate. California: Ohara Publications, 2001]. Tradução para o português, especialmente para este artigo: Samir Berardo].

[7] Karatejutsu no Kenkyuu (“O Estudo das Técnicas de Karate [“Mão da China”]”, em tradução livre), de Morinobu Itoman, é uma das melhores obras já lançadas sobre karate estilo antigo, escrita por alguém que aprendeu a arte na maneira antiga, e fez uso dela diariamente como oficial da lei nas ruas da antiga Okinawa (falaremos mais a respeito em um artigo futuro). É possível comprar a excelente tradução publicada por Mario McKenna em http://www.lulu.com/shop/morinobu-itoman/the-study-of-china-hand-techniques/paperback/product-20649437.html

Créditos de imagens:

No início deste artigo: Treinamento de karate com Shinpan Shiroma (Shinpan Gusukuma) em frente ao Castelo de Shuri, em Okinawa, 1938. Wikimedia Commons. Fotografia original, em preto e branco, publicada por Genwa Nakasone em Karate-do Taikan, 1938. Tradução para o inglês (“An Overview of Karate-do”) por Mario McKenna, disponível para compra no website Lulu.com e presente no acervo pessoal de Samir Berardo.

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