Recentemente compartilhei no Instagram um post com algumas considerações sobre uke-waza 受け技 no karate (expressão muitas vezes traduzida erroneamente como “técnicas de bloqueio”), no contexto da aplicação prática da técnica shutō-uke 手刀受け no kata Pinan Shodan (Heian Nidan). Para inaugurar este artigo, eu gostaria de rememorar o vídeo e o texto que o acompanhou na postagem em questão:

Shutō-uke” 手刀受け. O que isso realmente significa? A ideia de que certas técnicas de kata devem necessariamente ser interpretadas como “uke-waza” 受け技 não tem base histórica. Ao que parece, os nomes originais das técnicas de kata não sobreviveram à mudança para o karate moderno (e se considerarmos o quão figurativos são certos nomes aparentemente mais antigos, como “nami-gaeshi“, podemos concluir que os nomes originais eram provavelmente completamente diferentes das descrições ordinárias usadas modernamente). Além disso, a própria palavra “uke” 受け nem sequer significa “bloqueio” ou “defesa”, significando em vez disso algo em torno da ideia de “recepção” (isto é, uma técnica que você usa para “receber a ação do oponente”). Isto é, mesmo que você pense em uma técnica como um “uke-waza”, ainda existem diversas maneiras de receber a ação do oponente: passivamente, reativamente ou até proativamente. Definitivamente, não se trata apenas de “bloquear”. E há mais nesta história, por exemplo, o fato de a maioria dos “uke-waza” no kata serem executados com um avanço para a frente, apontando de forma suspeita para a ideia de que essas técnicas deveriam ser usadas agressivamente. É uma longa discussão, mas no final significa apenas que você nunca deve presumir que uma técnica de kata é uma “defesa” só porque foi modernamente chamada de “uke”. Em vez de nos apegarmos à terminologia moderna para determinar a função, é melhor usar as evidências históricas, contextuais, lógicas, técnicas e práticas disponíveis para compreender o bunkai, para determinar o significado das técnicas de kata. E eu lhe digo: há muitas evidências disponíveis, e elas apontam para a ideia de que shutō-uke é muito mais do que um mero “bloqueio de mão em faca”.

Eu escrevi o texto acima com muito cuidado, e espero que o leitor esteja atento a todas as informações presentes nele. É um ponto de partida muito importante. Mas, como eu disse no texto, trata-se de uma longa discussão. Então, depois de publicar essa postagem no Instagram, vários comentadores levantaram questionamentos bastante interessantes, o que me motivou a aprofundar a questão no presente artigo. Vamos em frente!

No karate você realmente usa “técnicas de defesa”

Uke-waza é um assunto complexo e por vezes controverso (devido à compreensão equivocada de muitos praticantes). Porém, eu tenho confiança para dizer algumas coisas sobre o assunto, e a primeira é que nós precisamos, podemos e devemos aplicar “técnicas de recebimento” (uma tradução melhor para uke-waza) quando enfrentamos uma agressão. Sim, quem diz que não existem técnicas reativas/defensivas no karate está completamente enganado (acredite, há quem diga isso). Na verdade, mesmo lutadores profissionais costumam usar diversos tipos de técnicas defensivas em suas lutas. É importante, no entanto, compreender que os uke-waza vão muito além do que normalmente é chamado de “defesas” ou “bloqueios”. Para começar, mesmo se pensarmos apenas na função defensiva das manobras do karate, estará incluída aí uma ampla gama de ações: retirada, obstrução, interceptação, redirecionamento, cancelamento, absorção e, por fim, contra-ataque protetivo. Vale ainda observar: essas várias ações são fluidas e adaptam-se livremente aos movimentos do oponente, e além disso podem ser combinadas entre si, com aplicação simultânea ou consecutiva de várias delas. Segue agora uma breve descrição do funcionamento dessas formas de “técnicas de defesa”:

  • Retirada: você remove da posição original o seu corpo ou a parte do seu corpo que era alvo do ataque do oponente. Por exemplo, movendo rapidamente a cabeça para trás (uma forma de esquiva) quando o oponente lhe dá um soco na cabeça. É uma técnica que pode e deve ser usada até mesmo na curta distância, mas é particularmente popular em situações de luta de longa distância, como no boxe e em outras artes marciais modernas.
  • Obstrução: você interpõe uma parte mais resistente do seu corpo para proteger uma parte mais frágil que está sob ataque. Por exemplo, colocando os braços na frente da cabeça. Trata-se da forma mais típica do que poderíamos propriamente chamar de “bloqueio” e, assim como a retirada, também é bastante popular nas lutas de longa distância (mas também tem o seu papel em todas as situações de luta). A obstrução possui de certo modo uma desvantagem particular, que é o fato de que o impacto tende a ocorrer num momento tardio, quando o golpe do oponente está em máxima velocidade, atingindo a barreira com mais energia acumulada. No entanto, é um método que tem a importante vantagem de não requerer um nível técnico muito avançado para sua execução, podendo inclusive ser usado por instinto natural do defensor, no fenômeno que podemos chamar de “reflexo de retração” (na expressão em inglês, “flinch reflex”).
  • Interceptação: você vai de encontro ao ataque do oponente, normalmente com um ou os dois braços/mãos, ou com uma perna, para interceptar o membro atacante o mais cedo possível, assim que o movimento é percebido. É quase como “atacar o ataque” do oponente. Nesse sentido, temos a lição do mestre Chōki Motobu: “Deve-se sempre tentar bloquear o ataque na sua origem”. Comparando com o método da obstrução, a interceptação tem a vantagem de encontrar o ataque do oponente num momento em que o golpe ainda não alcançou a velocidade máxima, de modo que o defensor deve receber um impacto bem mais tolerável. É um método que de certa forma requer mais habilidade que o método da obstrução, e normalmente é usado para defesa à curta e principalmente à média distância.
  • Redirecionamento: a sua mão ou braço (ou outra parte do seu corpo) já está desde o início em contato com o membro atacante (normalmente o braço) do oponente, de modo que quando você sente o movimento deste último, você imediatamente redireciona esse movimento, e o membro atacante é desviado para longe do alvo. É uma forma de defesa em que você exerce bastante controle sobre o membro do oponente. Como você pode ver, é uma técnica de curta distância, quando os envolvidos já estão em contato, e ela está intimamente relacionada com o antigo princípio okinawano de muchimi ムチミ.
  • Cancelamento: você agarra e prende o membro potencialmente atacante antes mesmo do início do movimento deste, de modo que qualquer tentativa de ataque daquele membro, por parte do oponente, é cancelada logo no início. Trata-se de uma técnica de curtíssima distância, normalmente usada em combinação com métodos de aderência como tsukamite ou kakaete e, novamente, tem importante relação com o princípio do muchimi.
  • Absorção: certamente é o método menos desejável de receber um ataque, mas a rigor também é uma maneira possível, e às vezes até viável. Basicamente, dependendo da parte do corpo que está sob ataque e da força do golpe, você simplesmente pode resistir ao impacto, “aceitando” o possível dano que o ataque do oponente pode causar. Em situações bastante específicas, pode haver um valor tático razoável nesse método. Por exemplo: você pode absorver um golpe no braço, na perna ou mesmo no abdômen, enquanto você simultaneamente atinge o oponente em um ponto mais vital, como na mandíbula ou na têmpora. Novamente, nas palavras de Chōki Motobu: “Não é necessário se preocupar em bloquear cada ataque de um oponente que tenha golpes fracos”.
  • Contra-ataque protetivo: em qualquer momento do confronto, você toma a iniciativa e ataca o oponente, de modo que, neutralizado pelos ataques recebidos, o oponente perde a capacidade de ele próprio desferir seus ataques. Vale observar que você pode contra-atacar depois, simultaneamente ou até mesmo antes do ataque do oponente, mas, em qualquer caso, todo ataque que responde a uma agressão injusta é uma espécie de contra-ataque e, como tal, é também uma forma de “receber” a ação ofensiva do oponente. A rigor, você pode inclusive contra-atacar com o mesmo movimento que usa para interceptar um ataque do oponente (usando o que o mestre okinawano Morinobu Itoman chamou de kōshu 攻守, “defesa ofensiva”).

Contra-ataques protetivos

Ao entrar no domínio dos contra-ataques protetivos, descobrimos um mundo totalmente novo para o uso daquilo que modernamente conhecemos como uke-waza. Particularmente no contexto do bunkai (análise) dos kata, essas técnicas podem e devem idealmente ser interpretadas não apenas como manobras reativas e defensivas (como foi visto acima), mas também, e especialmente, devem ser interpretadas como tendo uma natureza proativa e ofensiva. Vale dizer: essas técnicas não se transformam apenas em ataques, uma vez que elas ainda contêm os componentes de controle e de defesa. Porém, junto com esses componentes, sim, você deve usar uke-waza para atacar o oponente.

Nesse sentido, cabe aqui observar que a ideia de usar as técnicas chamadas de uke-waza como formas de ataque não é exclusiva do karate antigo. No karate moderno existem vários registros de mestres descrevendo e até demonstrando essa possibilidade. Veja por exemplo as palavras de Masatoshi Nakayama:

“[…] uma técnica de bloqueio, dependendo de como ela é usada, pode tornar-se uma técnica decisiva [isto é, um ataque]. Isso pode ser observado com frequência no karate-do”

Diante dessas palavras, acaba não sendo uma surpresa que a lição de utilizar uke-waza com função ofensiva tenha inclusive sido apresentada na clássica série de vídeos dos anos 80 (republicada em 1996) da Japan Karate Association (JKA), como podemos ver no vídeo abaixo, demonstrando uma aplicação para o shutō-uke:

Já na lição de Ei’Ichi Miyazato, fundador do Jundokan (Okinawa Goju-ryu), podemos observar um gedan-barai 下段払い sendo utilizado com função de ataque à região genital do oponente:

Na mesma linha ensinou Kenwa Mabuni, com a aplicação de um gedan-barai presente no kata Seipai:

Ainda no mesmo assunto, o mestre Gichin Funakoshi oferece palavras extremamente reveladoras:

“No entanto, existem ocasiões, dependendo do momento, ou ajustando-se a uma situação em mudança, em que a mão defensiva torna-se a mão ofensiva. Isso é chamado de “hente” (troca das mãos), e frequentemente em casos reais é mais eficaz do que o uso ortodoxo”.

No fim das contas, não devemos esquecer uma das principais lições ensinadas pelos kata do karate: o karateka (isto é, o respondente da agressão injusta) deve, idealmente, atacar continuamente até que o agressor seja derrotado. Recebendo ataques contínuos, o agressor será sobrecarregado e estará muito ocupado defendendo-se, tendo assim menos oportunidade para tomar a iniciativa e realizar seus próprios ataques. Para ilustrar essa lição, aqui está um vídeo onde eu demonstro aplicações do kata Pinan Nidan (Shorin-ryu) com uma sequência contínua de ataques, do primeiro ao último movimento, no que chamamos de renzoku bunkai 連続分解:

Se você acha essa abordagem do renzoku bunkai exótica, talvez se surpreenda ao ver que ela também é adotada por praticantes de Okinawa, como por exemplo Masaji Taira, da Okinawa Goju-ryu Kenkyukai:

Sobre a lição fundamental do karate de que o praticante deve conquistar e manter a iniciativa, Chōki Motobu sintetizou:

Karate wa sente de aru” 唐手は先手である。– “Karate é iniciativa”.

Ainda no tópico dos contra-ataques, eu gostaria de lembrar que aplicações ofensivas não necessariamente utilizam técnicas de impacto. O karate é uma arte eclética e, como tal, os uke-waza podem ainda ser usados como chaves de articulação, desequilíbrios/arremessos ou golpes em pontos vitais especialmente frágeis no corpo (kyūsho). Para ilustrar isso, temos a imagem abaixo onde eu demonstro a aplicação de um gedan shutō-uke como uma chave de articulação:

Duas ressalvas

No início deste artigo eu destaco o fato de que o karateka deve, sim, utilizar manobras defensivas. Mais para frente, exploro a natureza ofensiva dos uke-waza dos kata. Mas, se os uke-waza presentes nos kata têm natureza ofensiva, e os kata são a fonte fundamental das técnicas de karate, de onde vem o aspecto defensivo dessa arte marcial? A resposta é: o aspecto defensivo vem das próprias técnicas do kata, que não são apenas “ofensivas”, pois também trabalham com defesa e controle. Além disso, está presente ainda nos princípios fundamentais da arte (normalmente ensinados na forma de kuden 口伝, “transmissões orais”), como o muchimi. Esse aspecto defensivo pode ser observado quando percebemos que o kata frequentemente nos ensina a atacar o oponente com movimentos que percorrem as mesmas linhas dos prováveis ataques que o oponente poderia desferir contra nós. Por exemplo, depois de atacarmos a região genital do oponente com um gedan-barai (como se fosse um tettsui-uchi 鉄槌打ち, como vimos mais acima na foto da lição de Ei’Ichi Miyazato), caso o oponente tenha se defendido na parte inferior, o caminho mais provável para o nosso próximo ataque, conforme ensinado pelo kata, provavelmente será em direção à parte superior do corpo do oponente (uma coisa que eu chego a demonstrar no meu vídeo mais acima, do renzoku bunkai do Pinan Nidan). E, da mesma forma, o caminho mais provável (porque está mais aberto) para o oponente nos atacar será também em direção à parte superior, acima dos braços que estavam envolvidos com ataque e defesa do gedan-barai. A consequência disso é que o nosso próximo ataque tem grande probabilidade de se chocar com um possível contra-ataque simultâneo do oponente, e com esse choque o nosso membro atacante terá adquirido a função de membro defensor, numa forma de interceptação do ataque do oponente.

Esse uso defensivo de técnicas aparentemente ofensivas (e também o contrário, o uso ofensivo de técnicas aparentemente defensivas) é belamente sintetizado por Morinobu Itoman, da seguinte maneira:

“Assim, uma técnica ofensiva pode ser defensiva, ou uma técnica defensiva pode ser ofensiva; elas são a mesma coisa”.

Isso é uma lição que aprendemos de forma extremamente clara quando praticamos o kake kumite ou kakedameshi, como fazemos extensamente no Muidokan. Para além do método da interceptação, outras formas de defesa (isto é, da função de recebimento) também estão inseridas implicitamente nos kata, assim como várias formas de controle (lembrando que o controle pode ser usado defensivamente). Desse modo, é comum o kata ensinar a realizar ataques que naturalmente obstruem os nossos pontos vitais contra os ataques do oponente, ao mesmo tempo em que o corpo do oponente tem seus movimentos e sua capacidade de ataque limitados através de técnicas de controle (que já abordamos extensivamente neste artigo). Além de tudo isso, a compreensão e aplicação do princípio do muchimi confere ao karateka uma ampla capacidade defensiva, o que eu abordo neste artigo (com vídeo mostrando as técnicas contra um oponente não colaborativo).

A segunda ressalva diz respeito ao famoso lema “Karate ni sente nashi” 空手に先手なし, frequentemente traduzido como “Não existe primeiro ataque no karate”, mas que também pode ser traduzido como “Não existe iniciativa ofensiva no karate”. Sobre esse assunto, basta dizer que claramente o lema constitui um ensinamento de ordem filosófica ou moral, não significando que você precisa esperar o oponente desferir o primeiro ataque em situações de agressão injusta, sejam elas já em curso ou iminentes. O karateka deve, sim, sempre tomar a iniciativa, como foi bem colocado por Genwa Nakasone:

“[…] No entanto, no raro caso de você ter que lutar, você deve sempre tomar a iniciativa, uma vez que isso é simplesmente o lógico a fazer.”

Afinal, não há nada de novo

Diante disso tudo, é forçoso concluir que o uso extensivo dos uke-waza não apenas para defender, mas também para controlar e especialmente para atacar, como fazemos no Muidokan, não é nada mais do que uma aplicação rigorosa de ensinamentos que provêm do karate antigo, mas que em sua maior parte sobreviveram à mudança para o karate moderno na forma de fragmentos históricos. Nós simplesmente reunimos esses fragmentos e reconstruímos a figura original.

Cabe ainda lembrar o que foi dito no início deste artigo: a expressão uke-waza foi dada modernamente a certas técnicas de karate, mas não há evidências históricas de que a expressão corresponda necessariamente à ideia original por trás dessas técnicas. Assim, não devemos nos apegar a essa terminologia ao buscar determinar a função das técnicas, e em vez disso devemos usar as evidências históricas, contextuais, lógicas, técnicas e práticas disponíveis para compreender o bunkai, isto é, para determinar o significado dos movimentos de kata.

Uma contribuição final

Finalmente, nesta última imagem que trago para vocês, mostro vários dos uke-waza mais básicos do karate, aplicados com as três funções fundamentais – controle, defesa, e ataque em particular – todas ao mesmo tempo. Agora você também pode adicionar essas aplicações ao seu arsenal do karate.

Um ótimo treino a todos!

Bibliografia:

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HIGAKI, Gennosuke. Hidden Karate: The True Bunkai For Heian Katas And Naihanchi. Champ: 2006.

ITOMAN, Morinobu. The Study of China Hand Techniques. Kowakan Karatedo Ltd., 2013

Japan Karate Association. The Nakayama Legacy part1. YouTube, 27 de abril de 2018. Disponível em: <https://youtu.be/lrkbs-oHi-I?si=39AUnTKaAUb4lh1S&t=1082>. Acesso em: 05/05/2024.

MABUNI, Kenwa. Kōbō Jizai Karate Kenpō: Seipai no Kenkyū. Tokyo Kōbukan, 1934

MIYAZATO, Ei’Ichi. Okinawa Den Goju Ryu Karate-Do. Naha: Okinawa Goju Ryu Karate-do So Honbu Jundokan, 2005.

MOTOBU, Choki. Karate: My Art. 2nd Edition. IRKRS, 2006.

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NAKASONE, Genwa (organizador). Karate-do Taikan. Tokyo Tosho Company Ltd., 1938.

NAKAYAMA, Masatoshi. Best Karate 2: Fundamentals. Kodansha International Ltd., 1978.

TANKOSICH, Mark. “Karate Ni Sente Nashi: What the Masters Had to Say”. Disponível em: <http://www.marktankosich.com/karate-ni-sente-nashi-what-the-masters-had-to-say/>. Acesso em 05/05/2024.

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