Confira a entrevista concedida por Samir Berardo, fundador do Muidokan Karate Kenkyukai, para o podcast whistlekick Martial Arts Radio, apresentado por Jeremy Lesniak. Ele fala sobre sua trajetória nas artes marciais, sobre a pesquisa do Muidokan e sobre aspectos técnicos e históricos do Karate, bem como o contraste entre as abordagens antiga e moderna da arte. Abaixo também disponibilizamos a transcrição da conversa, traduzida para português.

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TRANSCRIÇÃO DO PODCAST

Jeremy Lesniak:

Bem-vindo, você está ouvindo o episódio 486 do whistlekick Martial Arts Radio com o convidado de hoje, Sensei Samir Berardo. Se você não sabe meu nome, minha voz, eu sou Jeremy Lesniak, sou seu apresentador no programa, sou o fundador do whistlekick e sou um artista marcial apaixonado. Tudo o que fazemos aqui é para apoiar as artes marciais tradicionais. Fazemos isso de várias maneiras diferentes. Se você quiser ver todas as coisas que estamos fazendo, acesse whistlekick.com. Essa é a nossa casa online, também é a maneira mais fácil de encontrar as coisas que fabricamos. Sim, fabricamos produtos! Coisas físicas que você pode querer conferir. Se você comprar um ou mais de um, use o código PODCAST15 para economizar 15%. Tudo deste show está em um site totalmente diferente, que é o whistlekickmartialartsradio.com. O programa sai duas vezes por semana, e o objetivo do programa e do whistlekick, de maneira geral, é que estamos trabalhando duro para conectar, educar e divertir artistas marciais tradicionais em todo o mundo.

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Que época interessante nas artes marciais tradicionais. Temos pessoas falando sobre artes marciais modernas e a mistura ou mistura de artes marciais. Temos pessoas apaixonadas por artes marciais que tiveram que ser redescobertas, como artes marciais europeias históricas.

O convidado de hoje é realmente apaixonado pelo que ele chama de Karate histórico e tivemos uma longa conversa sobre isso e o que tudo isso significa. Mesmo que você não seja praticante de Karate, acho que você vai gostar deste porque, conforme falamos de Karate histórico, estamos falando de muitas outras coisas. Coisas que são relevantes, independentemente do que você treina. Então, aqui está minha conversa com o Sensei Samir Berardo.

Jeremy Lesniak:

O que está acontecendo? Eu interrompi alguma coisa?

Samir Berardo:

Não, não mesmo. Eu estava estudando japonês, com o fone de ouvido plugado.

Jeremy Lesniak:

Quantas línguas você conhece?

Samir Berardo:

Cerca de quatro, incluindo japonês, mas neste momento não sou muito bom em japonês. Vou chegar lá.

Jeremy Lesniak:

Sempre fico impressionado com as pessoas quando elas decidem aprender um idioma. “Fui criado com um idioma, aprendi outro idioma e vou continuar aprendendo”. Quais são os outros idiomas? Obviamente, inglês.

Samir Berardo:

Sim, eu falo espanhol e português, então é inglês, espanhol, português e um pouco de japonês.

 Jeremy Lesniak:

Eu teria chutado espanhol pelo nome.

Samir Berardo:

No Brasil, falamos português, mas o espanhol e o português são muito semelhantes. A maioria dos países por aqui, os países vizinhos, falam espanhol, então é fácil para nós falar espanhol.

Jeremy Lesniak:

Então, eu estaria errado, mas perto disso é português. É engraçado. Eu posso me virar em espanhol. Não consigo entender português, mas se estiver escrito, posso descobrir porque o sotaque parece ser muito mais diferente do que a escrita.

Samir Berardo:

Realmente. Além disso, as pessoas que falam português acham mais fácil entender o espanhol do que as pessoas que falam espanhol podem entender o português. Isso é peculiar.

Jeremy Lesniak:

Oh, fascinante! Por que isso? Você sabe?

Samir Berardo:

Não sei ao certo, mas falantes de espanhol me disseram isso muitas vezes.

Jeremy Lesniak:

A extensão do meu português está em contar até 10, do meu tempo na capoeira.

Samir Berardo:

Se você vier ao Brasil, podemos mudar isso. Eu te ajudaria bastante.

Jeremy Lesniak:

Obrigado, eu apreciaria.

Se você estiver bem com isso, vamos seguir em frente. Nós começamos uma conversa e não faço ideia se os ouvintes gostam dessa parte do programa, mas não me importo porque eu gosto.

Samir Berardo:

Sim, é o seu programa!

Jeremy Lesniak:

É mesmo o meu programa e eu devo aproveitar essa parte, então obrigado por participar. Obrigado pela sua boa vontade de se juntar a nós hoje.

Samir Berardo:

Obrigado por me convidar. Estou muito feliz por estar aqui.

Jeremy Lesniak:

Você está no Brasil agora?

Samir Berardo:

Sim, estou. São 16 horas neste momento.

Jeremy Lesniak:

Ok, duas horas à frente. São 14 horas aqui. E o que você fez até agora, hoje?

Samir Berardo:

Hoje é um dia especial por duas razões. Primeiro de tudo, é Carnaval, então é feriado. Há muitas pessoas nas ruas, dançando, se divertindo. Eu não fui trabalhar. Além disso, é um dia especial por causa dessa entrevista. Não é algo que faço todos os dias e havia muita expectativa. Apenas alguns minutos atrás, eu estava enviando mensagens para alguns de meus alunos dizendo: “Ei, daqui a alguns minutos, será a entrevista”. Estou empolgado e meio nervoso, então era isso que eu estava fazendo, mas também fiz coisas que faço todos os dias, como estudar japonês.

Jeremy Lesniak:

Todo dia?

Samir Berardo:

Sim, todo dia.

Jeremy Lesniak:

E há quanto tempo você faz isso?

Samir Berardo:

Cerca de dois anos, mas consistentemente apenas no último ano.

 Jeremy Lesniak:

Agora, todos têm motivos diferentes para estudar idiomas. Eu suponho que o seu tem algo a ver com o seu treinamento.

Samir Berardo:

Claro, porque as fontes mais importantes das artes marciais que pratico estão escritas em japonês, especialmente as fontes históricas que são realmente as mais importantes. Como pratico uma arte marcial histórica, preciso pesquisar em fontes históricas.

Jeremy Lesniak:

O que você quer dizer quando diz que pratica uma arte marcial histórica? Acho que sei o que você quer dizer, mas acho que nunca ouvi alguém colocar dessa maneira.

Samir Berardo:

Sim, acho que é uma maneira peculiar de dizer. Acho que posso dizer que sou praticante de Karate, mas se digo isso, realmente, a maioria das pessoas terá uma visão errada porque pensará naquilo que é tipicamente conhecido como Karate. Na verdade, mesmo este nome Karate é um nome moderno. Havia nomes antigos e o Karate histórico, quando era praticado plenamente como arte marcial de autodefesa… esse tipo histórico de Karate era realmente extremamente diferente do tipo moderno de Karate. Ambos são ótimos, ambos são lindos, mas são realmente diferentes. Eles são diferentes tanto no objetivo para o qual são destinados, quanto do ponto de vista técnico. Karate moderno é feito para coisas diferentes, e também é diferente tecnicamente. Eles são completamente diferentes tecnicamente.

Jeremy Lesniak:

Você pode falar com algumas dessas diferenças? Porque eu acho que a maioria das pessoas que escuta, treinando ou não Karate, entenderão o que podemos chamar de Karate moderno, mas eu duvido de que muitas pessoas tenham uma compreensão do que você está chamando de karate histórico, então estou interessado.

Samir Berardo:

Acho que isso é algo útil também para todos que praticam artes marciais com raízes históricas, porque o Karate passou por um processo que muitas outras artes marciais passaram. A maioria das artes marciais históricas que sobreviveram até hoje passaram pelo processo de modernização. O Karate é uma delas e, historicamente, o Karate tinha apenas uma razão principal: a defesa pessoal. Não era “Karate”, com esse nome, porque é esse nome também é moderno. Em algum momento no passado, eles chamavam de Toude ou Toudi… nomes diferentes. Mas era uma arte marcial muito diferente, pelo fato de ter como objetivo a autodefesa.

Havia diferentes metodologias de ensino das técnicas, porque todo professor, todo praticante, tinha seu próprio tipo de Karate. Mas havia uma coisa mais importante para todos: o uso do kata, as formas. Outras artes marciais usam formas como artes marciais chinesas e taekwondo. O kata era muito mais importante para o Karate, para o estilo antigo, o karate histórico, do que é hoje, porque o kata era uma maneira de realmente resumir ou registrar as técnicas de luta verdadeiras do Karate histórico. Por exemplo, se treinamos juntos, eu ensino coisas a você ou você me ensina coisas e, no final, resumimos tudo o que foi ensinado em um kata. Não necessariamente somos nós que criamos o kata — nós podemos praticar um kata que foi criado por outra pessoa –, mas o ponto mais importante aqui é que com o kata, esse kata, sabemos exatamente o que estamos fazendo. Conhecemos o significado de cada movimento, porque o kata aqui é apenas uma consolidação de técnicas que estamos praticando. Nós não praticamos o kata sem saber o significado dos movimentos.

Esse é um assunto um tanto delicado porque, nos anos recentes, nas últimas décadas, houve muita confusão sobre o significado dos katas. É muito popular um tipo de ideia em que as pessoas pensam que o kata pode ser usado para qualquer coisa, mas isso não é verdade. Na realidade, os movimentos do kata têm significados corretos, significados históricos e esses significados podem ser trazidos de volta através da pesquisa histórica. Através da pesquisa científica, na verdade. São muitas disciplinas científicas diferentes que podem ajudar a trazer de volta o significado do kata. Portanto, essa é a diferença mais importante entre o Karate estilo antigo e o Karate moderno: o Karate estilo antigo era praticado com a compreensão correta, com a compreensão original do significado dos movimentos. Não apenas o significado do movimento, mas também a própria ideia de como os kata funcionam, porque a maioria das pessoas não compreende isso. Não é culpa de ninguém, isso é muito importante mencionar. Não é para culpar os praticantes ou os instrutores. O fato é que não foi ensinado a eles como o kata funciona, então como é que eles podem praticar algo que não foi ensinado a eles? Como eles podem ensinar algo que não foi ensinado a eles? Então essa é a diferença formal.

Então a diferença formal [entre karate moderno e karate antigo] é o uso do kata. Mas a diferença prática, tecnicamente a maneira de lutar, é que o Karate como arte marcial de autodefesa não tem limitação em termos de regras, tipos de ataques, tipos de técnicas. Não é uma arte de agarramento [“grappling art”] como alguns parecem estar dizendo hoje. O Karate estilo antigo não é uma arte de grappling. É simplesmente uma arte misturada. Eu poderia dizer que é uma Arte Marcial Mista, mas não gosto muito da ideia porque o termo parece significar algo como um esporte. Karate não era um esporte. Não havia regras e isso muda tudo. Mas um ponto é que, no estilo antigo, o Karate usaria técnicas de grappling, sim; e também usaria golpes de impacto, arremessos e pressão em partes mais expostas do corpo humano, como olhos, testículos, ataques a áreas que são proibidas qualquer tipo de esporte de luta. Mas eles não praticavam isso separadamente, como as pessoas costumam fazer hoje: as pessoas vão para a escola de grappling e depois para a escola de golpes de impacto [“striking”]. Se funciona, isso é ótimo, mas havia pouco sentido em fazer assim porque quando você luta por sua vida, deve usar qualquer coisa disponível, então não havia motivo para separar tipos de técnicas e, de fato, no estilo antigo de Karate, para os praticantes, a questões de separar ou não as técnicas nem mesmo faz sentido.

O fato é que o Karate estilo antigo usa tudo junto, às vezes até ao mesmo tempo. Por exemplo, você puxa o braço de alguém e pode executar uma chave nesse braço, contra a articulação do cotovelo e, ao mesmo tempo, golpear o oponente na cabeça, em um ponto vital como a mandíbula ou a parte de trás da cabeça. Você faz tudo ao mesmo tempo e isso é muito bom, porque quando o oponente está tentando se proteger de um tipo de ataque, ele pode sofrer o outro tipo. O defensor (porque o Karate é uma arte defensiva) golpeia a cabeça do agressor. O agressor está tentando defender sua cabeça e, quando faz isso, sofre uma chave de articulação ao mesmo tempo porque não pode se proteger da chave se sua atenção estava concentrada no golpe na cabeça, de modo que esse é um aspecto muito peculiar do Karate estilo antigo. Não é exclusivo do Karate estilo antigo. Existem outras artes marciais antigas que fazem o mesmo, às vezes as artes marciais modernas fazem algo semelhante, mas eu não acho que de modo tão sofisticado quanto o Karate estilo antigo. Esse era um tipo de tecnologia de combate, de conhecimento de combate, que estava realmente avançado na época porque isso era algo que eles precisavam de verdade. Isso é algo muito especial.

Eu acredito que há algo muito especial em relação às artes marciais históricas. Hoje, praticamos artes marciais por muitas razões e até para defesa pessoal. Eu mesmo sou professor de defesa pessoal no trabalho. Nós praticamos, mas não usamos isso tão frequentemente quanto as pessoas dos tempos antigos usariam porque hoje estamos em um mundo muito mais pacífico. É um mundo mais seguro. Por exemplo, se eu pratico uma arte marcial por dez anos, isso não significa que minha arte marcial precisa funcionar, porque é muito improvável que eu precise dessa arte marcial. E o que pode acontecer? Eu posso me tornar um professor sem nunca ter precisado usar minha arte marcial! Então algo muito peculiar acontece, um professor que nunca lutou ensinará outras pessoas a lutar, certo? Pode ter lutado, sim, por esporte, e isso é muito bom. Não estou descartando a importância, a utilidade do treinamento para o esporte. É realmente, extremamente útil e bom, mas é simplesmente um mundo diferente. Pode funcionar. A arte marcial moderna que as pessoas estão praticando pode funcionar, tudo bem. Mas mesmo que não funcione, a arte marcial ainda pode ser transmitida a outras pessoas e às gerações futuras. Mas nas artes marciais antigas, se não funcionar, você já era. Você morre. Ou não morre, mas não razão para passar adiante, porque pessoas nos tempos antigos não praticavam artes marciais por hobby. Elas não teriam interesse nisso. Elas tinham outras coisas para fazer e, em um mundo diferente, era necessário que a arte marcial funcionasse.

Mesmo que as pessoas aprendessem uma arte marcial que não funciona, assim que elas precisassem dessa arte marcial, elas fracassariam, e as técnicas não seriam passadas para futuras gerações.  Isso é muito especial, porque se nós voltamos para as antigas artes marciais, nós descobrimos que é como a sobrevivência do mais apto. É uma seleção natural de técnicas que foram usadas em diferentes gerações. Por exemplo, o “artista marcial A” precisa usar suas artes marciais. Algumas dessas técnicas funcionam, outras não, mas ele sobrevive… Ele sobrevive às ocasiões em que algumas de suas técnicas não funcionaram. Essa “pessoa A” ensinará apenas o que funciona para a “pessoa B”, e a “pessoa B” precisará das artes marciais e das técnicas novamente. E a “pessoa B” aprenderá com muitas pessoas diferentes. Essa segunda pessoa, a “pessoa B”, só vai repassar o que funciona de novo, e assim por muitas gerações. Então o resultado é uma enorme quantidade de grande conhecimento acumulado e esse conhecimento acumulado é formalizado, é conservado, é passado adiante através do kata. O kata é o conhecimento acumulado de muitas pessoas, por muitas gerações. Pela minha própria experiência, quando estudo kata, às vezes vejo alguma coisa no kata e penso — eu falo também com meus alunos — e eles sentem o mesmo: “Como alguém pode ter imaginado nisso? Isso é coisa de gênio. Isso não é o trabalho de uma só pessoa”. Mas esse é o ponto. Não é realmente o trabalho de uma pessoa. Muitas pessoas ensinando umas às outras e o processo continua levando a uma tecnologia de combate superior, a tecnologia de autodefesa.

Eu gosto de comparar à tecnologia, porque a tecnologia é praticamente a mesma coisa. As gerações futuras constroem mais com base no que a geração que veio antes já havia descoberto, mas a dificuldade hoje das artes marciais modernas é que o contexto do uso das artes marciais modernas é diferente. O que isso significa? A sobrevivência do mais apto, a seleção natural, tende a funcionar de maneira diferente hoje. Então as pessoas selecionam não o que funciona melhor para autodefesa, por exemplo, mas em vez disso elas podem selecionar o que funciona melhor para contextos esportivos específicos, ou para o que elas estiverem fazendo com suas artes marciais. A seleção natural pode se tornar a evolução da arte marcial mas se na forma da seleção do que tem uma aparência melhor. Isso é bom? Eu acho que é bom, mas é importante entender as diferenças entre os dois.

A grande diferença, do Karate estilo antigo, do Karate histórico que era praticado no Reino de Ryukyu — que hoje é a prefeitura de Okinawa no Japão — é que essa arte marcial que costumava ser praticada no Reino de Ryukyu era uma arte de autodefesa, unicamente para autodefesa, para proteção da vida. Também seria útil para proteger sua vida em termos torná-lo mais saudável. Você seria mais saudável praticando artes marciais. Atualmente, isso ainda é um benefício em praticar artes marciais. Isso se praticarmos de maneira inteligente, é claro, porque as artes marciais podem ser boas ou ruins para a saúde dependendo de como as praticamos. Mas artes marciais antigas protegeriam a vida dos praticantes, tanto em tempos de paz quanto de violência. Não havia competições, não muitas demonstrações, não havia essa cultura de hoje, de artes marciais por diversão ou por outros tipos de apreciação, então essas são as diferenças. Se parece que deixei alguma lacuna, por favor, pergunte-me.

Jeremy Lesniak:

Você está indo bem e logo de início esclarece o tema que vamos abordar hoje. Uma das coisas que eu mais gosto no nosso formato é que ele oferece a oportunidade para os convidados de falar sobre as coisas que são importantes para eles nas artes marciais. Para alguns, são suas realizações, são as coisas que eles viram, a superação das adversidades e, aqui com você, estamos falando sobre as diferenças entre as artes marciais atualmente e as artes marciais historicamente. Onde você traçaria essa linha? Quando você está falando sobre Karate histórico, de que período estamos falando?

Samir Berardo:

Essa é uma pergunta muito boa, porque não é simples. Quando falamos de período, talvez a única maneira certa de responder esteja em algum lugar no tempo no qual o kata tenha sido estabelecido. Não sei exatamente quando, mas, por exemplo, se pratico um kata específico como o Naihanchi Shodan, que é um kata muito popular no Karate. No Karate japonês, algumas escolas como Shotokan o chamam de Tekki Shodan. Se praticarmos esse kata especificamente, sabemos que ele vem de algum lugar antes da virada do século 19 ao 20, mas não podemos ter certeza de quando ele foi criado. Só sabemos que praticamos algo que vem do momento em que eles criaram esse kata. É uma resposta muito condicional. Não é uma medida para um nível de tempo específico. O nível é o kata e as técnicas, sabemos que em algum lugar no passado elas foram estabelecidas e o kata, Naihanchi Shodan, mas não sabemos exatamente quando.

Eu posso lhe dizer que o Karate estilo antigo ainda seria praticado dessa forma até a virada do século 19 para o 20. Foi quando começaram a ensinar Karate por outros motivos que não eram de autodefesa. Eles começaram a ensinar Karate naquele tempo que não chamariam de Karate. Eles chamariam isso de Toude ou Toudi na língua uchinaguchi, que era uma língua de Okinawa, uma língua que viria do reino Ryukyu. Na virada do século, no início do século 20, eles começaram a ensinar Karate como uma forma de educação física para jovens estudantes do sistema escolar de Okinawa. Foi então que começaram a ensinar Karate abertamente para muitas pessoas. Antes desse período, as aulas eram privadas, aulas particulares e quando o Karate começa a ser ensinado como uma forma de educação física, esse é o ponto de referência, é quando sabemos que começou a mudar para o Karate moderno. Não é o único ponto, mas é provavelmente o ponto mais importante que diferencia o Karate estilo antigo do Karate moderno, mas não sabemos ao certo quantos séculos ele foi praticado antes.

A história do Karate se complica. Temos fontes escritas criadas na virada do século que são muito boas, muito importantes, mas antes disso eles não escreviam sobre o Karate. Tudo seria transmitido oralmente, por isso não podemos dizer com certeza, provavelmente algo a partir de um ou dois séculos, sobre a influência dos chineses em Okinawa e talvez quatro a seis séculos porque a imigração de algumas famílias chinesas para Okinawa equivale a alguns séculos. Não sei ao certo quantos, mas provavelmente são cinco ou seis séculos. Ecos chineses que começaram a viver em Okinawa, no reino Ryukyu provavelmente são aqueles que (não podemos dizer com certeza) trouxeram a maior influência para estabelecer a arte marcial específica que hoje poderíamos chamar de Karate estilo antigo. Haviam outras artes marciais que chegaram antes no reino Ryukyu, mas antes da influência chinesa era certamente algo diferente. O que define Karate como é o uso de formas, de kata e, provavelmente, os praticantes do reino Ryukyu começaram a usá-los depois que as famílias chinesas emigraram para a vila Kume no reino Ryukyu, de modo que provavelmente há quatro ou cinco séculos atrás.

Jeremy Lesniak:

E como você começou esse caminho? Foi assim que as artes marciais lhe foram originalmente ensinadas ou você começou de uma maneira diferente e encontrou esse modo?

Samir Berardo:

Bem, acredito que, para a maioria dos praticantes que estão tentando encontrar as artes marciais que mais os satisfaçam, é normal que façam um caminho com muitas paradas e curvas diferentes. O meu foi assim. Meu primeiro contato com artes marciais foi quando eu tinha cerca de 12 anos, na cidade em que nasci, Belém na região do Pará, na Amazônia brasileira, e era na verdade capoeira e jiu-jitsu brasileiro. E acho que se eu perguntasse a você, você seria capaz de imaginar isso.

Jeremy Lesniak:

Essas são as duas artes marciais brasileiras que eu conheço.

Samir Berardo:

Sim, exatamente, mas Belém é um lugar muito perigoso. Não tenho orgulho de dizer isso, mas é verdade. Está sendo considerada uma das 10 grandes cidades mais perigosas do mundo e desde muito jovem eu vi violência. Tive vários amigos que foram mortos, esse tipo de coisa, então quando eu praticava capoeira e jiu-jitsu brasileiro, principalmente capoeira porque eu gostava mais, era algo que todo mundo praticava, por exemplo, na escola ou depois de uma partida de futebol. A gente jogava futebol e depois continuava praticando capoeira ou jiu-jitsu brasileiro. Na verdade, os dois juntos. Eu praticava em uma época que as pessoas iam jogar capoeira e de repente elas iam para o chão. Nunca gostei muito disso porque gostava do jogo de capoeira em pé, mas era uma coisa que as pessoas faziam e infelizmente, como a violência está muito presente na nossa vida, as pessoas usavam as artes marciais para lutar.

É importante notar que estou falando de luta como as brigas de rua e não a autodefesa, que são coisas muito diferentes. Não tenho nenhum orgulho de ter participado de brigas de rua quando era jovem. Pratiquei essas artes marciais por cerca de 4 anos, 5 anos e até um dia, lutei na frente de um professor. Na verdade, era um professor de escola e ele era como uma figura paterna para mim e ele me viu lutando e me disse que eu tinha feito uma coisa muito ruim. Fiquei com muita vergonha e depois disso, nunca mais tive uma briga de rua. De qualquer forma, naquela época também havia muitos valentões. Essa era uma das razões pelas quais eu praticava artes marciais e realmente aprendi muito sobre como lutar na rua contra aqueles valentões para me proteger e às vezes, para proteger meus amigos. Continuei fazendo isso alguns anos depois, até terminar a escola.

Fui para a faculdade e comecei a trabalhar muito, muito jovem, então parei de praticar artes marciais porque tinha que estudar e trabalhar. Não tinha tempo para praticar artes marciais, mas depois que me formei na faculdade, consegui um emprego muito bom, um cargo público, e nesse emprego eu tive aulas de defesa pessoal. Tínhamos aulas de defesa pessoal e quando isso aconteceu, pensei, “uau, é hora de voltar às artes marciais.” Isso foi há 12 anos e eu nunca mais parei. Na verdade, nunca parei nem por um dia.  Quando voltei para as artes marciais, meu primeiro professor era um professor de Karate e ele deixou uma impressão muito forte em mim. Ele disse: “Espero que você continue praticando depois de terminarmos as aulas de defesa pessoal” e foi exatamente isso que eu fiz. Treinei com muitos instrutores diferentes porque pensei comigo mesmo: “Eu entendo que as pessoas praticam artes marciais por muitas razões diferentes, mas quero praticar artes marciais que me façam sentir que funciona, que funciona para a luta.” Não só porque é bonito, não só porque te deixa saudável. Eu queria praticar para lutar especialmente para me proteger, porque eu tive aulas de defesa pessoal e queria levar isso para o próximo nível.

Então fui para uma escola e depois para outra. Eu não praticava apenas Karate. Nesse meio tempo, pratiquei Taekwondo. Sou faixa-preta em Taekwondo. Sou faixa preta em Karate Shotokan. Pratiquei Judo. Eu pratiquei o Krav Maga, mas me apeguei ao Karate estilo antigo — ao que descobri ser o Karate estilo antigo — porque era o que me parecia ser o método mais eficaz de artes marciais que eu conheci para defesa pessoal. Não estou dizendo que é o método de artes marciais mais eficaz que existe. Eu não sei, porque não conheço todas as artes marciais, só sei um pouco mais sobre o Karate antigo — mas foi o mais eficaz que encontrei. Senti que, ao começar a dar aulas de defesa pessoal no trabalho, as pessoas que também praticavam outras artes marciais reconheciam a eficácia dessas técnicas, as técnicas antigas do Karate, e concordavam comigo. “Nossa, cara, eu nunca tinha visto isso antes e realmente parece funcionar muito bem.” Até meus instrutores de Judo concordavam. Tive alunos e instrutores que, quando começamos a praticar para o contexto de defesa pessoal, concordavam: “Sim, isso é ótimo”. Não que eu tenha o que há de melhor, sou apenas um estudante, mas procuro o que funciona melhor e funciona para mim. É isso.

Jeremy Lesniak:

E eu acho que essa busca é algo que não é único. Acho que a maioria de nós que se aventurou em nossas primeiras artes marciais está procurando por algo mais. Queremos saber se é algo que funciona melhor na nossa mente em um sentido prático ou esportivo ou que se adapta melhor ao nosso tipo corporal. Estamos sempre procurando por isso e acho que isso é importante. Uma das minhas coisas favoritas sobre as artes marciais é que existem diferentes maneiras de vivenciá-las.

Samir Berardo:

Você acabou de dizer uma coisa… Você disse que as artes marciais são diferentes e eu concordo totalmente com você. Mas acredito que algumas pessoas podem pensar que as artes marciais são todas iguais no final, o que não é verdade. Elas são diferentes — mas são diferentes por quais motivos? A principal razão pela qual elas são diferentes, eu acho, é que elas são feitas por razões diferentes, para contextos diferentes. Por exemplo, uma arte marcial feita para um contexto esportivo específico — por exemplo, competição de jiu-jitsu brasileiro — é feita para esse tipo de contexto, então será necessariamente diferente de outras artes marciais feitas para outro contexto esportivo, e ambas são artes marciais esportivas. Ambas são muito eficazes em seus contextos específicos, mas são muito diferentes entre si porque não foram criados para fazer as mesmas coisas.

Mesmo se considerarmos artes marciais que não são para o esporte, mas para “luta real”, “luta até a morte”, elas ainda podem ser muito diferentes entre si. Artes marciais com armas serão muito diferentes das artes marciais sem armas. Isso deveria ser óbvio, mas já mostra que as artes marciais são diferentes. Mas mesmo que você obtenha duas artes marciais com as mesmas armas, elas ainda podem ser diferentes. Por exemplo, se você considera apenas artes marciais com espada, as artes marciais com espada japonesas feitas para uso militar serão diferentes das artes marciais japonesas feitas para duelos. Quando você é um soldado, você tem uma maneira muito diferente de lutar porque pode usar uma armadura. Seu oponente pode ter uma armadura, pode haver muitos oponentes ao mesmo tempo. Você pode ter outros soldados do seu lado também.

Um duelo é uma coisa totalmente diferente. Se eu for um policial no Japão antigo, meu jeito de usar minhas artes marciais também será diferente da maneira que uma pessoa usará em um duelo ou uma pessoa usará no campo de batalha. Um policial não deve matar seu oponente imediatamente. Um policial não pode fugir. Nem um soldado, nem alguém em duelo. Mas alguém que só luta para se defender pode fugir. Isso é algo que você pode fazer quando está usando artes marciais para autodefesa — então o contexto é muito diferente.

Se você é mulher, se não é fisicamente muito forte, suas artes marciais tendem a refletir seu físico, seu corpo. Se você é muito forte, se você é grande, você é um homem grande que pode tirar proveito de sua força, suas artes marciais também refletirão isso. Então as artes marciais são de fato muito diferentes umas das outras por esse motivo. O que podemos fazer é procurar o que se adapta melhor aos muitos aspectos daquilo que queremos. O tipo de corpo, como você disse, o tipo de aplicação das artes marciais e todos esses detalhes. Mas, se o contexto for completamente o mesmo, é claro, diferentes artes marciais tendem a se parecer cada vez mais semelhantes, e isso é um fato histórico.

Jeremy Lesniak:

Sim, certamente não é minha observação ou comentário, mas ouvi algumas pessoas dizerem que as artes marciais, quando você começa, parecem muito diferentes, mas quanto mais tempo você passa com elas e melhor você fica, quanto mais você entende, mais semelhantes eles se tornam.

Samir Berardo:

Isso é verdade até certo ponto. É como o equilíbrio que temos em tudo, quanto mais sabemos algumas coisas, mais vemos em comum entre elas. Quanto mais sabemos algumas coisas, mais encontramos também os detalhes que são diferentes. O corpo é o mesmo, as leis da física, as leis da fisiologia são as mesmas para todos. Na verdade, você não precisa usar isso apenas para artes marciais. Se você pensa em esportes, por exemplo, beisebol ou golfe têm taco, você ainda usará seus quadris, o swing, a maneira como você usa muitas partes diferentes de seu corpo para executar uma técnica no golfe ou no beisebol. Ou no basquete, você não joga uma bola usando apenas os braços, você usa todo o seu corpo, você usa as pernas, então há muito em comum com outras atividades físicas.

Elas se tornam mais semelhantes, mas, por exemplo, se você socar com toda a massa corporal como uma lança (isso é típico, mas não é o único tipo de técnica de soco do Karate antigo), usando um impulso direto contra o corpo do oponente, você provavelmente prefere socar com as articulações dos dedos indicador e médio.  Se você socar como um martelo, em trajetória circular sem usar toda a massa corporal, você poderá usar outras articulações do punho — elas são ótimas para executar, por exemplo, o tipo clássico de soco no estilo Wing Chun.

Eu acredito que o estilo de soco Wing Chun, por exemplo, é daquele jeito possivelmente porque ele foi feito para ser usado por pessoas mais leves. A lenda diz que uma mulher criou o Wing Chun. Por esse motivo, os socos são diferentes dos do Karate. No Karate, usamos mais da nossa massa corporal, mas não significa que Wing Chun não usa massa corporal. Se usarmos as últimas três juntas de nossas mãos, de nossos punhos, com os mesmos tipos de socos, é mais fácil para nós termos aquela fratura de boxe bem conhecida no punho. É mais fácil danificar nossas mãos e pulsos, então esses são os tipos de diferenças.

Jeremy Lesniak:

Eu concordo completamente. Vamos mudar um pouco de marcha. Nós conversamos muito sobre artes marciais e as artes marciais que você pratica, mas falamos muito pouco sobre você. Quero saber mais sobre você. Você falou sobre crescer em uma área difícil no Brasil. Eu não acho que você mencionou a cidade.

Samir Berardo:

A cidade é Belém. É o mesmo nome que em português da cidade onde nasceu a figura religiosa, Jesus Cristo. É exatamente a mesma cidade de onde veio o famoso praticante de Karate Lyoto Machida. Ele não nasceu em Belém, mas foi criado em Belém, ele vem dessa cidade.

Jeremy Lesniak:

Tenho certeza de que temos muitas pessoas que conhecem esse nome. Muito bom. Você sempre se interessou por história?

Samir Berardo:

Eu realmente acho que não, para ser sincero.

Jeremy Lesniak:

Não? Isso me surpreende.

Samir Berardo:

Qual é o objetivo de pesquisar a história das artes marciais? Eu só estava interessado em artes marciais que funcionassem para mim, que me deixassem satisfeito. Se eu achava que funcionava, isso era o suficiente para mim e eu realmente nem queria pesquisar. Eu não planejava me tornar um pesquisador. Por que preciso parar de jogar videogame ou andar de skate? Por que eu iria parar de fazer coisas que gosto de pesquisar para aprender a falar japonês e todas essas coisas? Eu preferiria fazer as coisas que já fazia, mas para entender melhor as artes marciais que praticava, fui forçado a estudar sua história. Quanto mais estudava sua história, na verdade, mais satisfeito ficava com o tipo de artes marciais que praticava.

Não foi o único tipo de pesquisa, não apenas pesquisar história, mas pesquisar história realmente ajudou a dar sentido a tudo o mais em minha pesquisa particular. Há algumas pessoas que sabem disso hoje. Existem até algumas pessoas famosas que disseram que isso a minha pesquisa é incrível como, por exemplo, Jesse Enkamp, o “Karate Nerd”. Eu o encontrei algumas vezes. Eu mostrei a ele um pouco das minhas pesquisas e ele disse “uau, eu nunca vi nada igual na minha vida.” Isso é algo que ele disse e se você não acredita em mim, pergunte a ele. Ele disse que eu poderia repetir o que ele disse, então estou bem com isso.

Essa minha pesquisa… Eu digo que é baseada em cinco pilares. É [1] pesquisa histórica, contextual; [2] pesquisa estratégica e tática; [3] análise biomecânica e fisiológica; [4] pesquisa formal, que é a análise dos antigos katas, as formas do Karate; e finalmente, [5] teste sob pressão. Então o que eu faço hoje é baseado nesses cinco pilares e a história é apenas um desses pilares, mas é extremamente importante porque quando estudo história, recebo mais informações sobre como fazer as coisas.

É impressionante como os velhos mestres em tão pouco tempo escreveram tantos livros de Karate estilo antigo. Seria ótimo se tivéssemos mais, seria maravilhoso ter mais, mas é impressionante que em apenas algumas décadas eles já tivessem escrito muito e esses livros sejam muito úteis. Não só para entender a história, não estou falando sobre isso. Estou falando realmente sobre o aspecto prático das artes marciais.

Você nem mesmo precisa ser um praticante de Karate para aprender com esses livros. Você tem, por exemplo, o livro Toude-Jutsu no Kenkyu (Estudo das Técnicas da Mão da China), de Morinobu Itoman, que era um oficial da lei de Okinawa e escreveu este livro sobre o estilo antigo do Karate. Ele nem mesmo usou a palavra Karate em seu livro. Ele o chamou de Toudi, que seria um dos nomes antigos do Karate. O tipo de ensinamento que ele colocou em seu livro pode ser usado por qualquer pessoa que queira aprender a lutar para defesa pessoal. Ele até fala algumas coisas engraçadas como “ok, às vezes você pode cuspir na cara do agressor para ganhar tempo para fugir ou para acertá-lo em algum lugar”. Ele ensina coisas que são muito incomuns hoje, mas você pode realmente usar, mesmo que não seja um praticante de Karate. Se você é um praticante de Krav Maga, praticante de jiu-jitsu focado em defesa pessoal, você pode usar os ensinamentos de lá. Mesmo os ensinamentos técnicos, não estou falando apenas de cuspir na cara das pessoas, nos olhos das pessoas, mas você pode usar os conselhos técnico que ele dá lá.

Existem ótimos livros, mas não é suficiente focar apenas na parte técnica. É melhor que você dê sentido a tudo se estudar história, então é por isso que fui para a história, mas eu apenas estudo o necessário, porque o tempo é limitado para todos e eu tendo a me concentrar no aspecto técnico. Existem muitas pessoas por aí que estão fazendo um trabalho maravilhoso na descoberta da história das artes marciais. Não apenas das artes marciais japonesas, mas das artes marciais europeias. Para o Karate de Okinawa, há algumas pessoas fazendo coisas realmente maravilhosas e estou muito grato pelo que fizeram. Eles são as verdadeiras pessoas dedicadas à história das artes marciais. Não que eles próprios não sejam técnicos, mas eles fizeram um trabalho realmente maravilhoso revelando a história dessas artes marciais.

Jeremy Lesniak:

Pode apostar. Agora, passamos a maior parte do nosso tempo falando sobre o passado. Quer seja o seu passado ou o passado do Karate, então vamos inverter isso. Vamos falar sobre o futuro. Você mencionou que tem uma escola e tem alunos, então nos conte um pouco sobre isso. Conte-nos o que você espera que venha de sua compreensão do japonês e de sua capacidade de ler e traduzir esses textos e de treinamentos futuros e tudo mais. O que está acontecendo no futuro?

Samir Berardo:

Minha única intenção no começo era praticar artes marciais para mim mesmo, para ficar satisfeito com o que eu estava fazendo, mas chegou a um ponto em que eu encontrei tantas coisas com a pesquisa que descobri que precisava compartilhar com outras pessoas. Na verdade, até meus alunos queriam que eu compartilhasse. Falei sobre Jesse Enkamp, ele me perguntou “o que você vai fazer se morrer e isso não for publicado?”. Então, hoje, não quero que isso fique na minha cabeça, no meu computador. Quero que as pessoas aprendam sobre isso e continuem levando adiante porque eu sou uma pessoa só e não trato isso como o trabalho de uma pessoa só.

É como ciência. Na verdade, minha pesquisa é baseada em método científico. Por exemplo: precisamos replicar tudo o que fazemos, precisamos testar, precisamos enviar para outras pessoas para que encontrem erros — e isso é algo que aconteceu muitas vezes, então quero que mais pessoas fiquem cientes disso. Em primeiro lugar, então esse entendimento, esse conhecimento vai ser passado adiante. Vai ser conhecido por todos, e a segunda coisa que quero é que continuem o trabalho. Não que eu não queira continuar, mas como eu disse, sou uma pessoa só e, embora esteja trabalhando nisso, não há razão para eu ser o único trabalhando nisso. Na verdade, há outras pessoas tentando fazer o mesmo e acho que todos precisam se unir para trabalhar juntos.

Algumas pessoas trabalharam comigo, mas infelizmente, isso não acontece o tempo todo. Entendo que faz parte do mundo. As pessoas são assim. As coisas não são fáceis. Não é que outros pesquisadores sejam pessoas ruins. Não é isso, mas algumas pessoas estão tentando ganhar dinheiro com essa pesquisa e isso é muito válido, mas por esse motivo, é mais difícil para eles trabalharem junto com outros pesquisadores porque se torna uma espécie de competição. Como eu disse, faz parte do mundo. A sociedade é assim. Podemos entender, mas a parte mais difícil às vezes é que a competição até nos impede de testar o que o outro está fazendo ou de nos reunirmos para ver o que realmente funciona, o que funciona melhor ou o que faz sentido. Então o que eu quero é fazer com que as pessoas saibam o que eu fiz. Na verdade, estou trabalhando exatamente nisso. Por exemplo: apenas dois ou três anos atrás, muito poucas pessoas sabiam o que estou fazendo. Quase só meus alunos, porque minha pesquisa foi privada em anos mais anteriores, por muitos anos. Eu nunca publicava nada sobre isso. Eu apenas discutia em particular com outros pesquisadores e ensinava meus alunos.

Além disso, meus alunos não são realmente alunos. Nunca aceitei alunos só para ter alunos, porque nem cobro pelas aulas — não que ache isso ruim, acho que é totalmente válido. Na verdade, eu adoraria ter uma escola comercial em certo ponto, porque me ajudaria, por exemplo, se eu vivesse de ensinar artes marciais. Isso me permitiria trabalhar nas artes marciais na maior parte do dia, e hoje eu não faço isso. Tenho um trabalho muito bom no governo brasileiro e ensino artes marciais lá. Essa é uma posição muito especial, mas eu não pesquiso artes marciais lá na maior parte do meu dia. Então o que eu adoraria fazer é começar a ensinar como meu trabalho principal e compartilhar com o maior número possível de pessoas, fazendo-as saber o que eu tenho pesquisado e convidando-as a contribuir para essa pesquisa — e até mesmo que elas tentem rebater as conclusões do meu trabalho. Com isso, todos podem começar a trabalhar juntos.

Vou te dar outro exemplo. Eu disse algo a você quando começamos esta conversa — que os movimentos do kata têm um significado específico, um significado correto. Os movimentos do kata não são livres para interpretação. Esta pode não ser uma visão muito popular, mas para ser honesto, estou muito convencido disso. Eu tenho muitas provas e nunca, quando contei isso pessoalmente a alguém e mostrei todas as provas, a pessoa discordou. Todo mundo que vê isso acaba concordando. “Uau, isso é verdade. Existe um verdadeiro significado original”. Claro, esse significado não é completamente fechado. É até o contrário. O kata tem um significado correto, sim, mas é um significado consideravelmente aberto a uma grande quantidade de variações. Mas você precisa saber e entender de onde está partindo para entender as variações, e eu quero mostrar isso a outras pessoas para que possam entender o raciocínio por trás disso, por trás de tudo isso e vou dizer a eles. Essa é a regra que eu uso para interpretar, para analisar essa sequência específica de movimentos e esses movimentos, essas são todas as regras e eu quero saber se isso é verdade.

Claro, tenho feito a pesquisa sozinho e meus alunos são meus sujeitos de teste. Meus alunos, e também meus visitantes, e as pessoas que visito também  — porque tenho visitado outros artistas marciais e eu os convido para fazermos encontros para testar artes marciais, para testar o que venho pesquisando. Venho fazendo isso há anos, mas quero levar isso para mais pessoas, e a maneira mais fácil de fazer isso é mostrar pessoalmente, porque é um assunto complexo e requer muito tempo para explicar. Mesmo depois de eu explicar, por exemplo, alguém pode muito bem duvidar. “Oh não, não acredito no que você está dizendo, Samir”. Mas se eu mostrar pessoalmente, “ok, então vamos tentar fazer isso de verdade”, nós vamos tomar medidas de segurança, claro, mas eu vou demonstrar de verdade, e é assim que finalmente podemos ter certeza de que aquilo funciona.

Existe algo ainda melhor. Depois disso, os praticantes podem testar o que aprenderam por si próprios. Eles podem testar com outras pessoas. Existem maneiras de testar com outras pessoas também, e as artes marciais modernas já têm feito isso. Eles têm tentado testar, mas, até agora, a maioria dos testes que eles fazem não são completamente de defesa pessoal. Os testes visam, por exemplo, ver o que funciona em um ambiente esportivo, como no MMA. Uma luta de MMA é uma ótima biblioteca de artes marciais, mas há um problema com ela. Ela funciona com as regras do MMA. Não é bom para testar o que funciona, por exemplo, em um contexto de defesa pessoal. Claro, é melhor do que nunca testar o que fazemos.

MMA tem vantagens, ao menos, porque ser um tipo de teste sob pressão. Mas se em vez de usar no MMA você tentar testar em um ambiente específico que busque estar o mais próximo possível da defesa pessoal, isso ajuda você a entender melhor o que funciona para defesa pessoal. Já que a minha arte marcial específica, o Karate estilo antigo, é voltada para a defesa pessoal, então é isso que eu quero testar. Significa que precisamos ter um tipo diferente de teste. Acontece que os okinawanos, os antigos praticantes do Karate, as pessoas do reino Ryukyu, realmente faziam testes sob pressão que usavam para ver o que funcionava e o que não funcionava. Não era exatamente como uma luta de MMA. É um pouco diferente, porque o MMA tem algumas regras muito restritivas. Claro, alguns desses testes de pressão serão especialmente perigosos, mas você pode colocar diferentes tipos de regras que tentam levá-lo o mais perto possível da defesa pessoal e, ao mesmo tempo, tentar manter as coisas seguras, tão seguras quanto possível, enquanto mantém o realismo do seu teste. Por exemplo, pense em uma luta de wrestling. Uma luta de wrestling é ótima para testar técnicas de grappling, mas faltam as técnicas de golpes de impacto. Então quando você adiciona as técnicas de golpe de impacto, talvez você fique um pouco mais perto do MMA, mas existem algumas coisas que não funcionam muito bem quando você compara o MMA com defesa pessoal, porque na legítima defesa você pode simplesmente fugir e não pode no MMA. Por outro lado, no MMA você pode gerenciar o tempo e a distância, e isso é algo que você não pode fazer muito bem em defesa pessoal. Você luta, ou foge, ou morre.

Existem diferentes contextos de defesa pessoal, então estou sendo um pouco simplista aqui. Não estou falando de brigas de rua, estou falando apenas de proteção à vida. Mas a maioria dos cenários reais de defesa pessoal são muito rápidos. Eles acontecem muito rapidamente e de perto, então quando você pensa em criar um tipo de teste de pressão que se concentra principalmente em algo que acontece rápido e de perto, você cria um novo tipo de desafio. Uma das coisas que estou tentando fazer no futuro é estabelecer testes de pressão abertos ao público. Nós chamaríamos isso de esporte? Tenho medo de chamar isso de esporte, mas no final das contas é um pouco como um. Imagine algum tipo de luta de MMA onde os praticantes não consigam ficar mantendo distância uns dos outros. Por que eles não podem manter distância? Porque essa não seria uma situação realista para defesa pessoal. Se você se mantiver à distância de um agressor real, o agressor se aproximará. Talvez haja muitos agressores. Você pode manter distância de um deles, mas provavelmente o outro tentará lhe pegar por trás, e assim por diante.

São muitas as diferenças, então um dos meus planos para o futuro é ter também desafios abertos para convidar as pessoas para que possamos testar técnicas de artes marciais. Na verdade isso tem dois nomes históricos. Algumas pessoas no Reino Ryukyu o chamariam de kakidamishi, ou em japonês seria kakedameshi, e alguns deles também o chamariam de kake kumite — essa é uma expressão japonesa. É uma espécie de teste de pressão para artes marciais, mas visando técnicas de defesa pessoal. E quanto às técnicas que não são permitidas, por exemplo, no MMA, como golpes na nuca? No kakidamishi, podemos concordar que bater na parte de trás da cabeça é permitido, mas você não pode bater de verdade. Em vez disso, se a parte de trás da cabeça de alguém estiver exposta, você pode mostrar um ataque, simular um tipo de ataque e os praticantes concordarão que o ataque aconteceu e seria um ataque muito, muito perigoso. Seria um ataque muito eficaz.  Poderia haver outra pessoa de fora julgando se funcionaria ou não em um cenário de defesa pessoal, e que ajudaria os praticantes a pararem de ficar expostos a técnicas que são muito eficazes, mas que não são permitidas no contexto esportivo. Também os ajudaria a estarem condicionados a usar essas técnicas, caso precisassem fazer isso em defesa pessoal. Então tenho esse plano para o futuro, junto com tornar mais pessoas cientes da minha pesquisa.

Eu tenho minha escola, mas não é apenas uma escola. Na verdade, é uma sociedade de pesquisa. Seu nome é Muidokan Karate Kenkyukai. Significa Sociedade de Pesquisa de Karate Muidokan, e acontece que existe uma escola dentro da sociedade de pesquisa, porque ensinamos as pessoas a promover e testar o que fazemos, mas na verdade ela é uma sociedade de pesquisa. Minha ideia é divulgar o Muidokan. Isso inclui ensinar as pessoas pessoalmente por meio de seminários. Já tenho ministrado seminários em todo o Brasil. Pessoas de outros países têm me convidado para dar seminários, mas não sei exatamente quando vou fazer isso, porque viajar para outros países leva muito tempo e tenho meu trabalho principal, que é uma coisa completamente diferente. Então eu preciso ter certeza de que posso ensinar e, ao mesmo tempo, posso continuar trabalhando. A menos que saia do meu emprego e comece a ensinar em tempo integral, mas isso é muito difícil, especialmente no Brasil, e eu tenho um bom emprego, então…

Jeremy Lesniak:

Você não quer desistir disso tão facilmente.

Samir Berardo:

Sim, eu não poderia. Essa é uma das coisas que quero fazer. A outra coisa é promover, é praticamente a mesma coisa, mas quero estabelecer um tipo de formato de competição, o formato de teste de pressão para ajudar mais pessoas a testar o que estão tentando aprender para defesa pessoal. Não precisa ser grande, nem mesmo precisa ser especialmente popular, embora eu ache que seria muito popular porque, pense em uma luta de MMA, mas com mais algumas medidas de segurança e ao mesmo tempo, algumas regras mais abertas em termos de permitir mais técnicas. Mais técnicas serão permitidas, até mesmo técnicas que você pode executar mesmo se seu oponente for muito mais forte do que você. Uma vez que o MMA proíbe as técnicas mais eficazes, também proíbe exatamente as técnicas que permitem que uma pessoa fisicamente mais fraca subjugue uma pessoa mais forte, até certo ponto. Uma pessoa mais fraca ainda pode subjugar uma pessoa mais forte, mas fica mais difícil se você não pode bater nela, por exemplo, na parte de trás da cabeça, se você não pode manipular pequenas juntas, se você puder atacar seus olhos. Eu sei que há uma grande discussão sobre o quão eficaz é o ataque aos olhos, então não quero entrar nisso, mas é algo que acho que qualquer pessoa seria capaz de concordar que funciona. Quanto funciona é uma questão diferente, mas se não funcionasse, realmente, nem seria proibido, então essa é uma das coisas que eu quero fazer. Promover a pesquisa, o formato de desafio e o formato esportivo, por assim dizer. Provavelmente viajar um pouco para alguns países.

Estou planejando viajar para Okinawa para divulgar o que estou fazendo, mas tenho uma filha pequena. Ela está com 1 ano e 3 meses agora, então preciso esperar um pouco até ela ficar um pouco mais velha e depois irei viajar para Okinawa e mostrar o que estou fazendo. E eu espero estar fazendo isso agora, estou promovendo a pesquisa conversando com você. Na verdade, estou muito feliz por estarmos conversando exatamente por esse motivo.

Jeremy Lesniak:

E nós estamos promovendo isso e eu sei que você enviou alguns links, então por que você não avisa as pessoas, para quem estiver ouvindo? Elas sabem, a menos que seja seu primeiro episódio, que linkamos isso às notas do programa, mas onde as pessoas podem ir para conferir o que você está fazendo?

Samir Berardo:

Isso é ótimo! Em primeiro lugar, temos um site. É muidokan.com. Também temos uma fan page no Facebook com o mesmo nome, Muidokan. As pessoas podem pesquisar meu nome no Google, mas não é fácil para quem fala inglês. Nomes brasileiros são uma mistura de muitas nacionalidades, então é Samir Berardo, S-A-M-I-R e, em seguida, Berardo, B-E-R-A-R-D-O.

Eles podem procurar a fan page e o Facebook, o meu Twitter e meu Instagram que são @samirberardo e também podem procurar um vídeo que está no YouTube, que gravei com Jesse Enkamp, ​​o Karate Nerd. Foi uma ocasião muito peculiar quando fui a um seminário com Jesse Enkamp, ​​mas ele já conhecia parte da minha pesquisa. Ele também é pesquisador e a maioria dos pesquisadores se conhece. Eu acho que é a melhor coisa quando somos amigos. A maioria deles são muito educados uns com os outros. Estou muito feliz por isso. É um ambiente agradável, mas nem sempre porque são pessoas humanas. Já nos conhecíamos e eu disse a ele “ei, vou ao seu seminário, que tal se reservarmos um tempo para eu mostrar um pouco mais sobre minha pesquisa?” E quando eu mostrei a ele minha pesquisa, ele disse algo que eu nunca contei em público, então esta é a primeira vez que digo o que o próprio Jesse Enkamp disse. Ele disse: “Nunca vi isso antes. Nunca vi bunkai tão avançado.”

O que é bunkai? Bunkai é, em poucas palavras, o ato de analisar e compreender o significado do kata, das formas. Então ele nunca tinha visto um bunkai tão avançado e sugeriu que fizéssemos um vídeo junto com o bunkai, com explicação, de qualquer kata que eu queria explicar. Depois de fazer esse vídeo, ele iria editar o vídeo e publicá-lo. É exatamente o que fizemos, então há um vídeo meu explicando um significado. Esse é apenas o significado básico, mas Jesse Enkamp colocou o título no vídeo “avançado,” porque é avançado para a maioria dos praticantes. Eu explico o significado de cada movimento de um kata que é o Naihanchi Shodan. Eu fiz o mesmo com muitos, realmente muitos katas do primeiro ao último movimento com camadas e camadas de profundidade, de explicações táticas, de explicações biomecânicas de uma metodologia de ensino para tornar as pessoas realmente capazes de aplicar isso sob pressão real para valer.

Não são apenas demonstrações. É algo que podemos aprender e aplicar por nós mesmos. Na verdade, há um comentário de um brasileiro, Ivan Zonta. Acho que é o comentário mais curtido do vídeo. Está no YouTube e ele fala algo assim, “conheci Samir em um seminário no Brasil e ele aplicou isso em mim, embora eu não estivesse disposto a deixar que ele aplicasse em mim.” Ele descreveu uma experiência que tivemos juntos porque realmente nos conhecemos em um seminário no Brasil de um de meus instrutores, que é Kousaku Yokota. Ele é um ótimo instrutor japonês e nós dois fomos ao seminário e nos conhecemos e, para minha surpresa, ele me reconheceu do vídeo que Jesse Enkamp, então eu me ofereci para mostrar a ele de verdade como isso funciona. Embora ele tenha tentado lutar comigo tanto quanto pudesse, eu era capaz de aplicar isso contra ele. Esse é um relato em primeira mão, mas muitas pessoas fizeram isso comigo ou eu fiz isso com muitas pessoas. Dou seminários no Brasil e mostro para as pessoas que realmente funciona, então recomendo que as pessoas acessem o YouTube e pesquisem “Samir Naihanchi Bunkai” ou “Samir Naihanchi Bunkai Jesse” porque é um vídeo que está no canal de Jesse Enkamp. Acredito que seja o único vídeo do canal de Jesse Enkamp que tem o rótulo “exclusivo.” É porque quando eu mostrei meu trabalho a ele, ele ficou muito animado e foi muito enfático que ele queria ver. Ele achou que era muito, muito importante, mostrar a todos. Então ele colocou o rótulo “exclusivo” e falou tudo o que eu estou falando aqui do meu trabalho. Ele falou na frente de muitas outras pessoas, então você perguntar para os outros.

Jeremy Lesniak:

É uma grande honra.

Samir Berardo:

 Sim, foi realmente uma honra porque Jesse Enkamp é um ótimo praticante e pesquisador e tem sido uma inspiração para mim por muitos anos. De qualquer maneira, eu recomendo às pessoas que procurem esse vídeo do Naihanchi e há muitos outros vídeos em minha própria conta do YouTube e Facebook. O Facebook é uma fonte onde temos mais coisas publicadas. É isso aí!

Jeremy Lesniak:

Incrível. Vamos linkar tudo isso e linkar o vídeo do YouTube. Garantiremos fique fácil para as pessoas.

Samir Berardo:

Muito obrigado.

Jeremy Lesniak:

Isso foi maravilhoso! Tive um ótimo momento conversando com você e gostaria que você escolhesse como vai se despedir. Sempre perguntamos ao convidado quais palavras de despedida, que sabedoria, que conselho, como você quiser chamar. Que considerações finais você daria aos ouvintes hoje?

Samir Berardo:

O mundo das artes marciais é muito grande. As pessoas praticam artes marciais por muitos motivos e todos, se estão felizes com o que estão fazendo, são bons e suficientes. As pessoas praticam artes marciais porque ficam felizes. Eu acredito que isso é o mais importante quando praticamos artes marciais. Precisamos ser felizes principalmente porque quando estamos felizes com o que estamos fazendo, continuamos fazendo e também as artes marciais se tornam algo melhor. Mas o tipo especial de artes marciais que mais foco são as artes marciais de defesa pessoal ou artes marciais práticas, artes marciais aplicadas. É diferente, por exemplo, da apresentação estética de artes marciais. É um pouco diferente das artes marciais de competição esportiva. É mais aberto e eu diria que, todo mundo que busca artes marciais que trabalhem em um contexto real, em um contexto real de pressão, deveria fazer o possível para verificar, para testar.

Quando comecei a praticar artes marciais, tentei testar desde o início, mas durante alguns anos treinei com instrutores de Karate que me ensinaram a fazer coisas que eu suspeitava que não funcionariam se tentasse contra um parceiro resistente e contra alguém que estava realmente lutando contra mim. Acredito que esse sentimento de desconfiança sobre algo que as pessoas estão nos ensinando é algo muito comum para praticantes de artes marciais e eu acredito que não há razão para continuarmos sentindo porque, quando nos sentimos assim, ficamos menos felizes com o que estamos fazendo. Existem maneiras de testar. Pergunte a um amigo, “posso tentar aplicar isso contra você e vamos tentar ver como funciona?”. Mas claro que, acima de tudo, isso precisa ser feito com medidas de segurança.  De qualquer forma, o que estou tentando dizer é: tente descobrir o que realmente funciona e não apenas aceite. Não é desrespeito ao nosso instrutor sentir incerteza. Podemos pedir aos nossos instrutores que demonstrem com segurança, com cuidado. Mas precisamos ver se as técnicas funcionam.

Se estivermos focados em artes marciais práticas, precisamos ver se elas funcionam. É a mesma coisa, por exemplo, na ciência: se eu tento inventar um novo celular, não posso simplesmente vender esse celular dizendo que funciona e quando as pessoas tentam ligar ele nem liga ou não faz o que estou afirmando que faz. A ciência precisa funcionar. Eu acredito que deveria ser a mesma coisa para as artes marciais. Claro, para aqueles interessados ​​em artes marciais pragmáticas e práticas, no caso. Se em vez disso algumas pessoas querem praticar artes marciais apenas pela beleza, pela filosofia, isso é ótimo também. Mas se elas estão interessadas ​​na praticidade das artes marciais, a minha mensagem é testar e procurar mais pessoas tentando testar, porque hoje é mais fácil para as pessoas se comunicarem umas com as outras e é mais fácil testar. Quando mais pessoas falam que estão tentando ver o que funciona, é mais fácil se reunirem para testar e, finalmente, trazerem uma evolução real para as artes marciais.

Jeremy Lesniak:

Eu adoro ouvir as pessoas falando sobre o que as animam sobre seu treinamento, sobre sua compreensão do que fazem e por que o fazem. Senti que tivemos uma pequena janela de quem é o Sensei Berardo com esse episódio, porque se você entende por que alguém faz algo, você consegue entender muito sobre quem eles são e que o que eu senti estava em plena exibição hoje. Então muito obrigado por ter vindo, senhor. Eu me diverti muito, espero falar com você novamente.

Se você quiser mais, vá para whistlekickmartialartsradio.com. Lá você pode encontrar vídeos e links e mídias sociais e muito mais. Não apenas para este episódio, mas todos os episódios que já fizemos. Se quiser apoiar a nossa maneira de apoiar, você pode fazer algumas coisas. Você pode fazer uma compra em whistlekick.com. Não se esqueça do código PODCAST15 para obter 15% de desconto ou você pode compartilhar um episódio, deixar um comentário, contar a um amigo ou contribuir com o Patreon, que é patreon.com/whistlekick.

Lembre-se, se você vir alguém usando um chapéu ou uma camisa de whistlekick por aí, converse com eles, diga olá, pergunte sobre seus episódios favoritos ou como eles encontraram a empresa, porque o que você sabe quando os vê vestindo isso? Você sabe que eles treinam. Se eles treinam e você treina, talvez vocês possam ser amigos. Quem não quer mais amigos que treinam? Eu sim. Por que você acha que eu faço isso? Se você tiver sugestões para convidados ou tópicos ou outras coisas, vamos ouvi-los. Você pode enviar um e-mail para mim, jeremy@whistlekick.com, e você pode nos seguir @whistlekick em qualquer lugar. Isso encerra esse episódio então até a próxima. Treine duro, sorria e tenha um ótimo dia!

 

2 Thoughts to “Entrevista com Samir Berardo no podcast whistlekick Martial Arts Radio”

  1. Matheus silva

    Eu gostei e muito dessa entrevista e mais ainda de vê-la aqui na pagina do muidokan acessível para o português assim muitas pessoas vão se questionar e se aprofundar nessa arte tão linda gostei do jeito que o sensei deixou claro o moderno e antigo karatê ficou bem legal por isso eu queria falar parabéns sensei samir pelo seu trabalho e esforço para com essa arte eu so temho a agradecer

    1. Muito obrigado pelas palavras gentis, Matheus!
      Desejo uma ótima jornada para você.
      Grande abraço!

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